Sábado, Abril 23, 2011

Talvez eu queira mais que proporção...



Nunca sabemos ao certo o que queremos. Somos crianças grandes. Brinquedos nos fascinam. Não me corrija. Brinquedos é a palavra certa. Por que nos divertem. Brincamos de esperar, brincamos de fingir que não vimos e ouvimos, brincamos de perdoar e esquecer. Brincamos. Mas e quando a situação é séria? Brincamos de entender. Ficamos quietos, ouvimos, refletimos e esperamos a hora de...brincar. Por que é sinônimo de felicidade. Não que seja. Simulacro de uma provável felicidade que contenha os elementos certos para o que julgamos que somos. Na verdade o que me fez feliz, não é obrigatoriamente o que faz feliz ao outro. Quando duas pessoas são felizes com as mesmas coisas, ou sabem lidar com as coisas que diferentes fazem a felicidade de cada um, chamamos de amor.


Amor é entender, compactuar, compartilhar. Não é que ele seja a redenção. Mas existe algo de tão bom em sentir-se amado que nos permite que esqueçamos um pouco nossos dilemas existenciais. Não me diga, leitor que você não se sente no centro do mundo quando ganha atenção de quem ama.


E terminamos com William Shakespeare e um soneto que gosto muito...

Soneto 96


De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça. Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila no mínimo temor.

,Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe nenhuma idade,
Amor não se transforma de hora em hora.

Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.


beijos literários

Domingo, Julho 04, 2010

"Texto de prazer: aquele que comenta, enche, dá euforia;aquele que vem da cuktura, não rompe com ela, estáligado a uma prática confortável da leitura. Texto de fruição: aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta ( talvez até um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrtar em crise em relação com a linguagem."

Roland Barthes. O prazer do texto.

Ler é antes de tudo, romper com o propósito de um universo único. Lemos po que precisamos. É a sede de conhecer o que nos é diferente, estranho ou ainda exótico. Procuramos na literatura, as viagens que determinadas por espaço e tempo não podemos realizar. E então encontrando o caminho dessas viagens, passamos a procurar respostas, para um acontecimento cotidiano, para decepções, para alegrias...E quando encontramos, junto está a sensação de que algum ente no mundo, esteve na mesma situação. É ai que nos identificamos com alguam personagem, que nos dá a impressão de que é real, de que viveu semelhantes experiências.Não que a literatura seja perfeita, não que ela deva desconstruir nossa visão da vida. Não. É mais do que apenas isso.Imagine fragmentar-se por centenas de livros, em cada um deles colocar uma memória,como um álbum de fotos. Como se classificariam? Que livros são a minha, a sua memória?

beijos literários, muito pensativos...

Domingo, Março 14, 2010

Todas as vezes que menosprezássemos nossa existência deveríamos fazer um levantamento histórico para sabermos o que estava acontecendo no mundo no exato ano de nosso nascimento.
Queda de algum regime político, ascensão ao poder de algum partido esquerdista, terremotos, guerras, tsunamis, copa do mundo, filmes, coisas interessantes que foram lançadas, músicas, livros.Para quê? Para nos darmos conta que fazemos parte de um universo maior, ainda que ficcional. Um conjunto de coisas compõe nosso modo de ser ou ainda nossa cultura. E de certa forma, fazemos parte da história humana. Não pelo CPF, pelo voto, ou pelas contribuições de impostos.

Alberto Manguel diz em seu ensaio Últimas respostas que está no livro À mesa com o Chapeleiro Maluco, ensaios sobre corvos e escrivaninhas que " o fato de estarmos vivos, e de por meio de nossas ações desempenhamos um papel que ajuda a manter o equílibrio secreto do universo. Mas o consolo não nos tranquiliza"

Isso serve para aqueles momentos citados anteriormente nos quais nos sentimos inúteis, ou ainda, pequenos. Não somos.

Então procuramos explicações, ou apenas distrações furtivas para esquecermos de nossas questões pessoais. Eu costumo procurar nos livros. Devoro livros na busca incessante de respostas para as coisas que se apresentam em meu caminho.
E o que pode parecer absurdo para alguém racional: os livros me respondem! Sim, leitor, acredite.

Começou com Hamlet, e o "resto é silêncio", apareceu-me quando eu precisava encontrar uma resposta para uma questão na época, eu tinha então, vinte e um anos. Dez anos depois, passando por crise semelhante, abro um livro sobre Shakespeare e a primeira epígrafe do texto é exatamente a mesma frase. O mesmo conselho, dado pela mesma personagem...não pode ser coincidência. Acho que de tanto falar sobre Hamlet, ele acabou fazendo parte realmente do meu grupo de amigos...

Embora, Jane Eyre também me responda muitas questões...
Vamos lá, puxe da estante algum livro...permita-se acreditar...que as respostas são mais fáceis do que parecem.
beijos literários

Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

Pierrôs, Colombinas...e Arlequins
Imagem
Pierrô, Arlequim e Colombina - óleo sobre tela - 78 x 65 cm- 1922 - Di Cavalcanti


Desde pequena lembro-me das fantasias de carnaval das meninas...colombinas, só mudavam as cores: rosa, lilás, amarela. O certo é que elas iam de colombinas. Os meninos, bem, esses variavam entre o Batman, o Homem-Aranha e o Super-homem.

Um dia perguntei a minha mãe: o que é uma Colombina? E o que é o tal do Pierrot? Explicou-me Pierrot é como um palhaço, tem muita gente que confunde com Arlequim, que é como um bobo da corte e Colombina é uma moça bonita, muito namoradeira. Achei tão bonita a a explicação de Dona Olga, que guardei durante anos as imagens na memória.



E sempre que me percebo na época do carnaval, lembro dessas personagens. da onírica imagem criada pela marchinha de carnaval( (Zé Kéti e Pereira Matos):



"Tanto riso, oh quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando pelo amor da Colombina
No meio da multidão
Tanto riso, oh quanta alegria
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando pelo amor da Colombina
No meio da multidão
Foi bom te ver outra vez
Tá fazendo um ano
Foi no carnaval que passou
Eu sou aquele Pierrô
Que te abraçou
E te beijou, meu amor
A mesma máscara negra
Que esconde o teu rosto
Eu quero matar a saudade
Vou beijar-te agora
Não me leve a mal
Hoje é carnaval"


Por que os arquétipos de Colombina, de Pierrot e de Arlequim povoam nosso imaginário? Talvez por que simbolizem o amor fortuito, a ansiedade pelo encontro, da procura de um rosto sob a máscara carnavalesca, o beijo roubado, o prazer de sentir-se seduzido. Se no meio da multidão nos percebemos solitários, é o outro desconhecido a possibilidade do desejo atendido ou correspondido.



As personagens em si possuem significados de origem:

Colombina - Como Pierrô e Arlequim, é uma personagem da Comédia Italiana, uma companhia de atores que se instalou na França entre os séculos XVI e XVIII para difundir a Commedia dell'Arte, forma teatral original com tipos regionais e textos improvisados. Colombina era uma criada de quarto esperta, sedutora e volúvel, amante do Arlequim, às vezes vestia-se como arlequineta, em trajes de cores variadas, como os de seu amante.


Arlequim - Rival de Pierrô pelo amor de Colombina, usava traje feito a partir de retalhos triangulares de várias cores. Representa o palhaço, o farsante, o cômico.

Pierrot - Personagem sentimental, tem como uma de suas principais características a ingenuidade.


E assim vão em nossos sonhos carnavalescos essas personagens, cantando e procurando-se pelas ruas, embaladas pelas marchinhas, tapando as ruas de confetes e serpentinas, de um tempo bonito que a memória torna eterno. E quem de nós não tem um Pierrot, uma Colombina na lembrança, ou ainda o desejo de encontrá-los numa noite de carnaval?

Há ainda o texto de Menotti del Picchia, leitura completa nesse link:
http://www.revista.agulha.nom.br/mpicchia04p.html

Beijos literários...

Sexta-feira, Fevereiro 05, 2010

O apanhador no campo de centeio...

Lembro-me de quando li esse livro. Das muitas vezes que li esse livro. Tenho uma necessidade quase orgânica de encontrar Holden Cautifield. Fico triste quando vai acabando a narrativa e ele vai ficando lá, nas páginas.Holden é um guri esperto, sabe observar o mundo. Vantagem absoluta sobre os espertalhões.

Aliás, as personagens de Salinger são marcadas por essa capacidade de observação, são espertas, singulares. Lendo, Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira é que me dei conta disso. Nove histórias, foi um livro que esperei um tempo para ler, era falta de grana mesmo para comprar, quando a grana surgiu, eu parecia o garoto da Fantástica Fábrica de Chocolate atrás do passaporte dourado.

Em 2008, numa palestra que dei sobre Concerto Campestre, para alunos do ensino médio de uma escola de Porto Alegre, um aluno me perguntou: como eu faço para ser como a senhora? Que livros eu tenho que ler? Eu disse: O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger. Ele me respondeu: sabe sora, eu leio Borges...Respondi: mas tá na luz, segue em frente!Saudade desse aluno, não me escreveu mais...deve ter se perdido entre os livros.Gosto muito de adolescentes, de falar sobre livros para eles.

Engraçado isso, falar de literatura, é falar da minha vida toda, quando criança, queria ser alta para alcançar as prateleiras da estante da sala; na escola, passava as horas e os dias na biblioteca; na adolescência, tornei-me fissurada em literatura, lia, lia tudo. Ansiava pela aula de literatura.

Na faculdade, aprendi o que me angustiava antes: entender o que era o livro, todas as coisas que compunham o texto.E ainda hoje sou assim.Gosto de cada detalhe de uma obra, gosto de saber o que está ali, o que é e como eu posso desmembrá-lo, dissecá-lo tal como um anatomista faz com o corpo.Mas a literatura é viva, ela me surpreende a cada corte que lhe faço.

A literatura trouxe-me bons amigos, os melhores, e por isso sou imensamente grata. Ensinou-me sobre os bons e os maus, é minha companheira essa tal literatura, e ninguém de mim a pode tirar. Nem tentem!
Ah, obrigado Dona Olga, por me colocar sempre um livro nas mãos.

E bacana é a última frase de Seymour, uma apresentação:
Agora vai para a cama, vai. Depressa. Depressa e devagar.
J.D. Salinger - 1919-2010.
beijos literários

Domingo, Janeiro 17, 2010

Variações sobre o mesmo tema...
Consegue-se perceber que o amor se esconde sob a pele, no veludo que espalha em nossos corpos. O amor é o bater venoso do ir e vir do sangue. É portanto sanguíneo. Segue-se a música que entre os dedos dança freneticamente, ressoando poesia no céu da boca. Entender-se é compactuar com o deus das coisas. Das nossas coisas.

Caminho que se bifurca entre noite e dia. Se da noite o amor é cintilante como estrelas que se mostram no céu escuro. Se do dia, o amor se espalha como a água derramada sobre o mármore. Em ambos ouvimos todos os sons da selva que se abre frente aos nossos olhos. É escolha.

Amar-se é entrar pelos mesmos olhos que observam o mundo, voltar-se sobre si mesmo. Como a árvore que faz sombra ao próprio caule, protegendo-o do sol. Formigas famintas de doce seiva procuram em suas folhas, em suas flores o pulsar da vida verde. E encontrando alimentam-se.
Amemo-nos como as flores que desabrocham prontas para as abelhas, receptivas ao sol e a chuva. Por que das artimanhas da vida não podemos fugir.

Assim pegamos o amor, alimentando-se como as formigas da seiva verde, sob nossa pele, consumindo e nutrindo nossos dias. Fazendo-nos humanos.
beijos literários

Quinta-feira, Dezembro 31, 2009

É tempo de renovar-se...
É temporário e ao mesmo tempo definitivo falar de um ano que termina, por que o outro também passará pelo mesmo ritual. Prefiro então, falar das coisas boas que aconteceram no ano que termina.2009 foi um ano excelente. Primeiro ano do doutorado, primeiro ano em que todos os dias foram vividos em paz, ano em que o jardim floresceu completamente, colorindo os cantos escuros da casa. Ano em que os livros tomaram conta da casa e da alma, como nunca antes.
Também foi o ano de arrumar o lado esquerdo da janela do meu quarto, eu que antes via apenas um lado do bairro, agora vejo todo, e então a brisa invade o ambiente, deixa tudo fresco, com cheiro de pomar ( há um pomar na casa ao lado e o perfume das pêras e das laranjas é sentido aqui).Agora mesmo, escrevo sentindo essa brisa, com a luz do dia sobre a mesa. Está tudo calmo, tudo quieto, como se descansando da correria.2009 foi um ano de muito trabalho, de bom trabalho, de parcerias, de boas risadas.
Conheci boas pessoas que se tornaram bons amigos, outros antigos amigos, ficaram mais próximos, pudemos conversar mais. Tão bom poder conversar com quem nos ouve, a quem ouvimos com gosto e no final terminamos a conversa com um abraço apertado.
Há pessoas que se tornaram confidentes, outras tornei-me ouvinte.Foi um ano de libertação, pessoas ruins se afastaram, outras foram embora, as que permaneceram por perto que sejam felizes e descubram o bem querer e a boa vizinhança. E sigam seu caminho, sem lembrar ou interferir no meu.Aos egoístas que lhe seja concedida a bênção de perceber como as coisas são mais belas quando compartilhadas, entendidas e apreciadas em boa companhia e em companhia pacífica.
Amar não é ver o mundo cor de rosa, mas dar-lhe bonitas cores, poesia e prosa.

Aos meus amigos escritores, cineastas, professores, biólogos, poetas e desenhistas...ideias luminosas sempre.

É com brisa leve e fresca que meu ano de 2009 termina e é com brisa leve e fresca, repleta de paz e justiça que 2010 começa. Com todas as esperanças e expectativas que ele merece.

"A literatura nos ensina a melhor sentir, e como nossos sentidos não tem limites, ela jamais conclui, mas fica aberta como um ensaio de Montaigne, depois de nos ter feito ver, respirar ou tocar as incertezas e as indecisões, as complicações e os paradoxos que se escondem atrás das ações" Antoine Compagnon - Literatura para quê?

beijos literários repletos de brisa...